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AS GRANDES CONJUNÇÕES

Zeitgeist foi um conceito enunciado em 1769 pelo filósofo alemão Johann G. Herder para definir o conjunto de valores, perspectivas e costumes predominantes em determinado tempo. O Zeitgeist seria o espírito de uma época, portanto com uma característica totalizante que, segundo o autor, nos afastaria tanto de um livre pensamento quanto de um sentido normativo tradicional. Há no conceito uma noção de aprisionamento ou repressão, nas minhas palavras, como uma forte correnteza que arrasta os corpos à deriva num rio: você pode nadar contra a força da água, mas ainda assim será movido por ela. Numa adaptação simplória, Zeitgeist pode ser algo como tendência ou até senso comum. Muitos pensadores depois de Heder se preocuparam em entender a hegemonia de pensamento de um povo em dado período, afinal nossas ações estão limitadas por uma ideologia dominante que se manifesta nas instituições, na cultura etc. Zeitgeist foi citado ainda por Goethe em sua célebre obra Fausto e outros filósofos, mas posteriormente outros autores já destoavam desta definição e desenvolveram, a partir de diferentes metodologias, novos conceitos para compreender os movimentos culturais. Karl Mannheim se destaca na Sociologia do Conhecimento com a ideia de Weltanschauung (visão de mundo), investigando as disputas acerca da compreensão da realidade. Saindo do debate filosófico e científico, também temos na tradição astrológica uma preocupação de antever as formas de pensamento dominante de uma época, embora num sentido mais amplo, que atravessa várias gerações. Refiro-me às Grandes Conjunções de Júpiter e Saturno que se encontram a cada 20 anos e ficam, aproximadamente, repetindo o alinhamento na mesma triplicidade (signos de terra, fogo, ar ou água) por cerca de 240 anos. Abu Ma’shar e outros astrólogos clássicos usavam as Grandes Conjunções com cartas de Ingresso Solar e outras ferramentes de análise mundana para prever as mudanças de dinastia (poder), o surgimento de novas religiões, bem como de profetas e ideólogos. O procedimento não é nada simples, mas se bem estudado auxilia a antever rupturas importantes na história das nações e da humanidade como um todo. Meu professor, o astrólogo Gerson Pelafsky, costuma mencionar como os últimos dois séculos, de conjunções na triplicidade da terra, trouxeram um ciclo de forte industrialização, exploração da natureza e mal uso dos recursos. Em 2020, teremos uma nova Grande Conjunção em Aquário, que coincide também com a mudança de uma Dawr (período de 360 anos). Trata-se de um signo do elemento ar regido por Saturno. Segundo William Lilly, o fenômeno indicaria o retorno do humanismo na Terra, o que representaria o desenvolvimento das potencialidades do ser humano. Saturno tem alegria em Aquário, mas ainda assim é um maléfico: se por um lado zela pelo compromisso, por outro está associado a um poder difuso, o que pode ser positivo ou indicar um período de acirramento de um controle invisível.

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Foi nos anos 80 que tivemos a mais recente mudança de triplicidade (Trigonalis) das Grandes Conjunções de Júpiter e Saturno. Ao longo de quase dois séculos e meio, a humanidade vivenciou um ciclo marcado pelo elemento terra (Touro, Virgem e Capricórnio), período que se iniciou pouco antes da Revolução Industrial e teve seu fim no final do século XX. Não apenas os estilos de vida do ser humano mudaram radicalmente como o impacto ambiental causado pelas transformações político-econômicas desde então foi tamanho que muitos consideram que estamos vivendo no Antropoceno, era geológica marcada pela intensa intervenção humana na natureza. Em 1980, Júpiter e Saturno finalmente se encontraram num signo do elemento ar (Libra), quebrando com o padrão anterior. Entretanto, como o ciclo de 240 anos na mesma triplicidade não é perfeito, logo no ano 2000 tivemos novamente uma Grande Conjunção em Touro, iniciando mais um ciclo menor de 20 anos no elemento terra. Em dezembro de 2020, a conjunção de Júpiter e Saturno se dará no signo de Aquário, e aí sim os ciclos no elemento ar se perpetuarão nos próximos dois séculos. Tal evento não deve ser visto de forma leviana como quem espera o fim dos tempos ou um milagre que fará da Terra um paraíso. Os desesperançosos são carentes de um apocalipse e os iludidos de uma chuva de bênçãos que magicamente resolveria nossos problemas, sem esforço coletivo e individual de nossas partes. Entendendo que a Astrologia é a arte dos símbolos, e não das influências, é preciso compreender o que o elemento ar poderá refletir a partir de nossos contextos. O elemento ar é caracterizado astrologicamente como quente e úmido, duas qualidades primordiais da natureza relacionadas à vida. O calor promove vitalidade, expansão, excitabilidade, energia, movimento e dinamismo, ao passo que a umidade é nutritiva, flexível, amorfa e agradável. Em conjunto, ambos se relacionam ao temperamento sanguíneo: disperso, inteligente, informativo, curioso, leve, divertido, superficial, falador, amigável, misericordioso, gentil e sagaz. A partir disso, podemos esperar que as Grandes Conjunções em signos aéreos otimizem o que já teve seu início no século XX, sobretudo nos anos 80, com o desenvolvimento dos meios de comunicação e a consequente interação entre os povos do mundo. Também um incentivo maior às descobertas, à ciência e a uma educação menos enrijecida. Os signos do elemento ar são qualificados como signos humanos, então versam sobre questões como ética, moral, justiça, filosofia, diplomacia, boas maneiras, civilidade e conhecimento. Gêmeos oferece debilidade à Júpiter, e Aquário é descrito por alguns autores antigos como misantropo e ateu. As religiões perderão mais espaço e a humanidade deverá cuidar para não cair num racionalismo frio, desconectado de sua corporalidade, alma e espírito. Do contrário, os subciclos de Aquário em especial indicarão algum tipo de aversão ao próprio ser humano, ainda que favoreçam a cristalização das ideias de civilidade e distribuição de recursos. Libra e Aquário debilitam o Sol, dissolvendo formas centralizadas de poder e abrindo caminho para cooperação e partilha. Contudo, o Sol é aquele que oferece consciência, honra, verdade e afirmação, temas que geralmente ficam comprometidos ou em segundo plano, exceto em ciclos de triplicidade do fogo. Gêmeos, Libra e Aquário são regidos respectivamente por Mercúrio, Vênus e Saturno: três planetas que, quando interagem na natividade, representam sexualidades não-normativas. A tendência do mundo é borrar cada vez mais as fronteiras de gênero e afins, acredito eu, estendendo isso para as culturas como um todo: o sincretismo do ar supera a solidez da terra.

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Vou dedicar esta terceira e última parte do artigo sobre as Grandes Conjunções de Júpiter e Saturno falando brevemente sobre o Brasil (uma tentativa arriscada). Como vocês puderam ver até aqui, em dezembro de 2020 teremos um novo alinhamento destes dois planetas superiores no signo de Aquário, retomando o padrão do elemento ar iniciado nos anos 80 e interrompido por um subciclo de terra nos anos 2000. Júpiter e Saturno se encontrarão no grau zero de Aquário, onde ambos gozam de dignidade essencial: Saturno por domicílio e triplicidade e Júpiter apenas por triplicidade. Por coincidência, o Sol terá acabado de ingressar no signo de Capricórnio, trazendo ao mundo uma nova estação. No céu do Brasil, Júpiter e Saturno estarão ocidentais ao Sol e orientais à Lua na casa 10 pela divisão de signos inteiros, configurados para o poder e o Estado. Por quadrantes, estarão na 9, e o Lote do Espírito estará cravado no ângulo do MC: considero isso um sinal muito significativo para mudanças no governo, não apenas de liderança, mas dos próprios moldes institucionais. Temos sempre que ter em mente que as Grandes Conjunções trazem subciclos de 20 anos dentro de um ciclo maior de 240. O Sol, por sua vez, estará em júbilo na 9, onde também se encontrará Mercúrio, orientados para o conhecimento e as religiões. O Ascendente da carta é Touro, então Vênus, ao lado da Lua, falará sobre o povo. Ambas estarão em signos jupiterianos: a primeira em Sagitário e a segunda em Peixes. Juntando os pontos, temos um destaque para assuntos jupiterianos e de casa 9, levando em conta que Júpiter estará num signo de Saturno: religião e ciência, além de um certo “internacionalismo”. Religião e ciência costumam andar mais em competição do que em cooperação, então para entender qual dos dois terão mais força nestas próximas duas décadas, recorri à teoria das triplicidades de Dorotheus. Para o autor, o primeiro regente da triplicidade do sect da casa 9 versa sobre viagens, o segundo sobre religião e o terceiro sobre ciência. A nona casa está num signo de terra e o mapa é diurno, logo os regentes são, na ordem, Vênus, Lua e Marte. O primeiro não é tão relevante, então vamos nos ater aos outros dois: Lua está com força e dignidade medianas; já Marte está fraco, mas muito digno. A religião terá mais força para agir do que a ciência, mesmo a segunda estando com mais dignidade essencial. A ideia que me vem é de uma maior ascensão das igrejas. As Grandes Conjunções, contudo, marcam mudanças de dinastias, religiões e ideologias num plano que hoje pode ser considerado global, e Aquário é um signo inadequado para a religião. O início do período é complicado para o Brasil, e seu desenvolvimento deverá ser acompanhado pela análise de eclipses, ingressos e lunações. 

Guilherme de Carli

Referências
Carmem Astrologicum, Dorotheus
Anthology, Vettius Valens
Abu Ma’Sar on Historical Astrology: The Book of Religions and Dynasties on Great Conjunctions
Site: https://astrosphera.wordpress.com (Rodolfo Veronese)
http://www.astrologiatradicional.com.br ( Astrologia Tradicional, do Yuzuru Izawa )