A VÊNUS E O PADRÃO CULTURAL DE BELEZA FEMININO

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A VÊNUS E O PADRÃO CULTURAL DE BELEZA FEMININO

A Vênus é o planeta que simboliza as mulheres e tudo aquilo que se manifesta como feminino aos olhos de determinada cultura. Na mitologia, a Vênus nasce das espumas do mar ou de uma madrepérola na ilha de Chipre, nutrindo em sua origem uma relação com o elemento água, ainda que de forma temperada por surgir da superfície do oceano. Não por acaso, a Vênus se exalta nos braços de Júpiter, a grandiosidade das águas do signo de Peixes. Sendo fria e úmida, suas formas físicas tendem a ser arredondadas pelo acúmulo de fleuma e gordura. Alguns autores também lhe atribuem uma tônica sanguínea, indicando sua busca por calor.

Ao longo da História, percebemos algumas modificações culturais na maneira de se conceber a beleza da mulher, ora mais vinculada a sua própria natureza ora mais vinculada a natureza de outro planeta. Vamos a alguns breves exemplos:

Nos primórdios da Humanidade, há mais de 25.000 anos antes de Cristo, foi esculpida a “Mulher de Willendorf”, encontrada num sítio paleolítico na Áustria. Observamos, nesta representação, uma mulher com seios, ventre, ancas e vulva extremamente volumosos e arredondados. Naquela época inóspita, a sobrevivência da espécie era um dos grandes desafios para o ser humano, e provavelmente a fertilidade, percebida na vitalidade do corpo era considerada sagrada e bela. Podemos estabelecer uma associação entre Vênus e Júpiter, sendo este o planeta da fartura e prosperidade, de tudo aquilo que sobra, da própria fertilidade, por ser quente e úmido, e dos filhos. Havia um vínculo mais instintivo entre o sexo e a procriação, embora a Vênus sempre tenha prezado pelos prazeres. Na imagem de Iemanjá originada do povo Egba, localizado na atual Nigéria, também podemos observar essas características. Hoje, infelizmente a maioria das pessoas pensam em Iemanjá como uma mulher branca e magra, mas sua verdadeira aparência remete a uma mulher negra com grandes proporções. Ela zela o lar, protege os partos, governa as águas e emana poder feminino.

Em Esparta ou mesmo entre os povos celtas, tínhamos a mulher guerreira, uma imagem da fusão de Vênus e Marte. O mito das Amazonas conta que as mulheres cortavam um de seus seios para melhor manusear a espada (Marte rege o corte), e isso ilustra a importância social da guerra para aquele contexto. Especificamente sobre Esparta, o Estado preocupava-se com a alocação dos homens nos campos de batalha, e às mulheres era delegado a administração das cidades e mesmo a defesa dos territórios. Desde pequenas, as meninas eram treinadas em exercícios físicos com finalidade esportiva, competitiva e militar, mas também nas artes da dança e da escrita. Athenas, a deusa da Guerra, ilustra bem esta imagem. Mas parece-me que, particularmente em Athenas, a beleza das mulheres não era tão “muscular” como em outras regiões da Grécia, e sim lunar: longos cabelos ondulados e negros, pele perolada como a Lua, maternidade e realeza.

Photo by Eric Lessing

Ao longo do período medieval, com forte influência católica, as mulheres passaram a cobrir mais o corpo em nome dos ideais de pureza da sociedade religiosa. Vemos a Vênus se vinculando à faceta virginiana de Mercúrio (um planeta que sempre está muito próximo dos raios do Sol, por isso sua facilidade em ocultar-se), focada no “servir ao patriarcado” e a proteger-se contra as tentações mundanas. Não à toa, a Vênus tem debilidade no signo de Virgem, pois este vai contra sua essência, e esta época é marcada pela perseguição e condenação ao desejo e poder feminino.

Atualmente, no mundo ocidental, Vênus está simbolicamente associada a Saturno nos padrões de beleza da mulher. Para tornar-se bela, a mulher precisa passar por uma série de restrições, incluindo a fome, rejeitando o prazer não apenas pela questão religiosa, mas também pela exigência da perfeição. O ideal da magreza, visto nas modelos de passarela, muitas vezes chega ao extremo e acarreta distúrbios alimentares, como a anorexia. A exposição dos ossos (Saturno) torna-se desejável. Como a realidade moderna é complexa, contudo, Saturno e Vênus apresentam também sua voz na “contra-cultura”, resgatando antigos padrões de beleza, as tradições do feminino e o combate às regras do meio, assim como a inovação pela androginia. Ultimamente, o ideal espartano de Marte e Vênus retornou nas academias de crossfit e dietas de proteína, assim como Mercúrio-Vênus na expansão das religiões neopentecostais, que em muitos casos exige o uso de saia e pouca vaidade. Com Vênus-Sol, reinam as “divas” do mundo pop já num processo de empoderamento, autonomia e exuberância.

Gisele Bundchen, VOGUE Austrália

Para os homens, a situação não parece ter sido muito modificada com o passar dos séculos. O ideal de beleza masculina nunca foi a magreza, mas a força, o músculo, os traços quadrados, certa “animalidade”. Em alguns períodos da Grécia Antiga, homens sarados, mas com rostos femininos e angelicais (Marte-Vênus) correspondiam mais ao padrão daquela época, enquanto hoje aparentemente estamos vivenciando, no homem, o ciclo Marte-Sol, havendo a preocupação da exuberância, da estética (bronzeamento, depilação, cortes de cabelo) e do “pênis grande” como o mastro do Rei (Sol), algo que, pela estátua de Davi por exemplo, não parecia ser uma preocupação na Antiguidade.

Guilherme de Carli